Sobre a Educação Secular
Por que a neutralidade educacional é impossível (parte 1 de 3)
Tradução de “Secularized Education”, de Robert Lewis Dabney, publicado originalmente em 1879, na Princeton Review.
Será uma educação verdadeiramente secularizada possível ou admissível?
Primeiro, nenhum povo — de qualquer época, religião ou civilização anterior à nossa — jamais pensou assim. Contra a atual tentativa, certa ou errada, ergue-se todo o senso comum da humanidade. Pagãos, católicos romanos, muçulmanos, gregos (ortodoxos) e protestantes: todos, até hoje, rejeitaram qualquer educação que não fosse fundamentada na religião, considerando-a absurda e perversa. Ouçamos o Sr. Webster a respeito do testamento de Girard, o qual determinava — com o intuito de excluir o Cristianismo de sua faculdade — que nenhum ministro religioso jamais cruzasse os portões da instituição. O argumento contra o testamento era que o fideicomisso que ele propunha criar estava, nesse aspecto, tão em desacordo com toda a jurisprudência civilizada que se tornava ilegal e, portanto, nulo. A questão parecia tão formidável aos advogados que o Sr. Horace Binney, da defesa, viajou à Inglaterra para pesquisar a fundo as leis britânicas sobre fideicomissos. Foi ao defender esse ponto que o Sr. Webster proferiu as palavras memoráveis:
“Em que época, por qual seita, onde, quando, por quem a verdade religiosa foi excluída da educação da juventude? Em lugar nenhum. Jamais! Em toda parte e em todos os tempos, ela foi considerada essencial. Ela é da essência, é a própria vitalidade de um ensino útil!”
E essa não foi uma afirmação do Sr. Webster, o político, mas sim do advogado erudito, diante de oponentes competentes e empenhado em uma das atuações jurídicas mais importantes e responsáveis de sua vida. Ele sabia que estava dando voz ao peso da história e da jurisprudência. Ouçamos outra testemunha, de igual erudição e caráter superior (John B. Minor, LL.D., Universidade da Virgínia):
“Deve-se reconhecer como um dos fenômenos mais notáveis de nossa humanidade corrompida o fato de que, entre um povo cristão e em uma terra protestante, tal discussão” — sobre se a educação da juventude poderia ou não ser secularizada — “não pareça tão absurda quanto indagar se as salas de aula deveriam situar-se debaixo d’água ou em cavernas sombrias! O judeu, o muçulmano, o seguidor de Confúcio e o de Brahma — todos eles se empenham em instruir a juventude de seu povo nos princípios das religiões que professam, não se dando por satisfeitos enquanto, mediante ensino direto e reiterado, os jovens não se familiarizam ao menos com as linhas gerais dos livros que contêm, segundo creem, a vontade revelada da Divindade. Como se explica, então, que os cristãos sejam tão indiferentes a um dever tão óbvio, e tão claramente reconhecido tanto pelo judeu quanto pelo pagão?”
Tentamos, então, algo absolutamente inédito. Mas não seria possível conhecer a árvore pelos seus frutos? O ensino público entre os americanos tende a ser inteiramente secularizado. Qual é o resultado? De onde vem essa revolta geral contra a fé cristã neste país — tão repleto de igrejas, pregadores e uma literatura cristã abundante, tão orgulhoso de seus dias de culto e de seu evangelismo? O que preparou tantas pessoas para os absurdos sombrios do materialismo? Por que os periódicos que buscam circulação nacional consideram vantajoso exibir uma postura de irreligiosidade? Por que tantas lamentações sobre a corrupção pública e popular? Quem observa a corrente de opinião percebe que os mais sensatos estão repletos de receios quanto aos frutos dos métodos atuais. Como exemplo, tomem-se estas palavras do Governador de Massachusetts, proferidas em uma comemoração recente: “Ele” (o Governador Rice) “levantou uma voz de alerta quanto à inadequação e aos perigos do nosso sistema moderno de educação unilateral, que supunha poder desenvolver a virilidade e o bom civismo a partir do mero cultivo do intelecto”.
Segundo, a verdadeira educação é, em certo sentido, um processo espiritual, o cultivo da alma. Por “espiritual”, os teólogos entendem os atos e estados produzidos pelo Espírito Santo, distinguindo-os daqueles meramente éticos. O cultivo desses aspectos não constitui educação humana, mas santificação. Contudo, a educação é o cultivo de um espírito racional e moral, no qual a consciência atua como faculdade reguladora e imperativa, e cujo fim próprio, mesmo neste mundo, é moral. Mas Deus é o único Senhor da consciência; essa alma é a sua imagem em miniatura; a vontade d’Ele é a fonte de obrigação para ela; a semelhança com Ele é a sua perfeição, e a religião é a ciência das relações da alma com Deus. Ao reunirmos essas afirmações, os processos teológico e educacional revelam-se tão afins que não podem ser separados. É por isso que o senso comum da humanidade sempre recorreu à orientação do ministro religioso para a educação da juventude: na Índia, o brâmane; na Turquia, o imã; entre os judeus, o rabino; e nas terras cristãs, o pastor. Assim, em toda parte, os livros sagrados sempre foram os principais livros didáticos. A única exceção no mundo é aquela que Roma criou para si mesma, devido ao abuso intolerável de seus poderes. Responderia o secularista que essa educação sacerdotal resulta em um caráter obtuso e uma cultura pueril? Sim, onde os livros sagrados são escrituras falsas, mas não onde a Bíblia é o livro didático. Portanto, tais exemplos provam que o senso comum da humanidade estava, no fundo, correto, tendo sido apenas deturpado, em alguns casos, pela impostura.
A alma é uma mônada espiritual, uma unidade espiritual indivisível, sem partes, como que sem extensão. As faculdades que denominamos separadas são apenas modos de funcionamento que qualificam essa unidade, diferenciadas pelas distinções dos objetos sobre os quais operam. A força central permanece única. Dessas verdades, depreende-se que ela não pode ser cultivada com sucesso por etapas. Não podemos ter o intelectual aprimorando-a em um lugar e o espiritual em outro. Uma sucessão de objetos pode ser apresentada à alma para evocar e disciplinar suas diversas faculdades; contudo, a unidade do ser parece exigir unidade em seu cultivo bem-sucedido.
São as ideias cristãs que mais estimulam e enobrecem a alma. Aquele que precisa omiti-las de seu ensino é privado do braço direito de sua força. Onde encontrará uma definição de virtude como a apresentada no caráter revelado de Deus? Onde encontrará uma imagem tão enobrecedora de benevolência como a apresentada no sacrifício de Cristo por seus inimigos? Será que a concepção dos espaços interestelares pode expandir a mente tanto quanto o pensamento de um Deus infinito, de uma existência eterna e de um destino perpétuo? Toda linha de verdadeiro conhecimento deve encontrar sua plenitude em sua convergência com Deus, assim como cada raio de luz do dia guia o olhar para o sol. Se a religião for excluída de nossos estudos, todo processo de pensamento será interrompido antes de atingir seu objetivo final. A estrutura do pensamento permanecerá como um cone truncado, sem o ápice. Richard Baxter expressou essa verdade com vigor.
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